Ainda me lembro, até de como você respirava naquele dia, do
modo em que te vi indo embora, na certeza de que não voltaria tão cedo, mas
voltaria. Lembro só do que foi importante, e acredite... Cada segundo não foi
menos que isso. Lembro-me de como me olhava com ternura e depois transtornado,
fechava os olhos com frieza para mim e os abria para a escuridão. De como eu
senti a sua falta, me entregando aos frutos de um corpo perdido.
Para cada linha prescrita, um novo corte em seu nome,
esperando que em cada gota de sangue se esvaecesse o imenso amor que guardei
por ti. Esperando a sua volta em cada ferida curada, e lembrando-me da fuga em
cada cicatriz permanente.
E como todo poeta, esperava por você como o dia espera pra
nascer, me embriagando da tristeza, e me acabando na amarga e vasta lembrança
trazida por fragmentos de lucidez. Esperava por você me deliciando na doçura
ardente da dor, da falta. Me sustentando
apenas com as migalhas da minha solidão e fazendo alusão ao desejo de te ter
por perto.
E você não faz ideia do quanto a saudade ecoou pelos
corredores da minha casa, não faz ideia do quanto meu corpo gritou pelo seu e
depois, fracassado, caiu em devaneio petrificando a minha alma e me prendendo
a um futuro sem sorrisos, cor de cinza.
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